Refletir sobre o
sentido da existência é um grande desafio e compreendermos o caminho que
devemos seguir, torna o desafio maior. Zygmunt Bauman nos provoca uma profunda
reflexão e não há como nos mantermos alheios as demandas sociais e a
necessidade da mudança que o ser humano necessita empreender. Uma leitura que
nos remete a essa provocação!
"Para mudar o mundo, os
jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real."
Zygmunt Bauman
Esta semana (16), o
Fronteiras do Pensamento divulgou uma fala
de Edgar Morin em que o filósofo francês argumenta que estamos
vivendo o fim do futuro. Para Morin, a sociedade percebeu a ambivalência da
ciência, da razão, da técnica e da economia e perdeu a crença nestes enquanto
guias da humanidade: "A crise do futuro, a crise do progresso. A perda do
futuro é muito grave porque, quando se perde a esperança no futuro surge uma
sensação de angústia e de neurose", afirma Morin.
A
revista Época publicou, também esta semana (19), uma entrevista
exclusiva com o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Na conversa com o editor
de cultura da Época, Luís Antônio Giron, Bauman, considerado um dos
pensadores mais eminentes do declínio da civilização, fala sobre como a
vida, a política e os padrões culturais mudaram nos últimos 20 anos.
As instituições políticas
perderam representatividade porque sofrem com um “deficit perpétuo de poder”.
Na cultura, a elite abandonou o projeto de incentivar e patrocinar a cultura e
as artes. Segundo ele, hoje é moda, entre os líderes e formadores de opinião,
aceitar todas as manifestações, mas não apoiar nenhuma. Leia a entrevista
abaixo ou confira no site da Época.
Ao final do texto, acrescentamos a entrevista exclusiva que Bauman concedeu a
Fernando Schüler e Mário Mazzilli, na Inglaterra, para o Fronteiras do
Pensamento.
Veja também:
- Leia
mais perguntas a Bauman na Época: "A cultura é um campo de batalha e
um parque de diversões"
- Assista à conferência de
Mario Vargas Llosa no Fronteiras, A civilização do espetáculo
Entrevista
Zygmunt Bauman: "Vivemos o fim do futuro" por Luís Antônio Giron para
Época (19/02/2014)
Época: De acordo
com sua análise, as pessoas vivem um senso de desorientação. Perdemos a fé em
nós mesmos?
Zygmunt
Bauman: Ainda que a proclamação do “fim da história” de Francis Fukuyama
não faça sentido (a história terminará com a espécie humana, e não num momento
anterior), podemos falar legitimamente do “fim do futuro”. Vivemos o fim do
futuro. Durante toda a era moderna, nossos ancestrais agiram e viveram voltados
para a direção do futuro. Eles avaliaram a virtude de suas realizações pela
crescente (genuína ou suposta) proximidade de uma linha final, o modelo da
sociedade que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente. Nossos
contemporâneos vivem sem esse futuro. Fomos repelidos pelos atalhos do dia de
hoje. Estamos mais descuidados, ignorantes e negligentes quanto ao que virá.
Época: Segundo o
senhor, a decadência da política acontece desde o século passado. A situação
piorou agora?
Zygmunt
Bauman: A decadência da política é causada e reforçada pela crise da
agenda política. As instituições amarram o poder de resolver os problemas à
política. Ela seria capaz de decidir que coisas precisariam ser feitas. Nossos
antepassados conceberam uma ordem que dependia dos serviços do Estado-nação.
Mas essa ordem não é mais adequada aos desafios postulados pela contínua
globalização de nossa interdependência. Com a separação do poder e da política,
a gente se encontra na dupla situação de poderes livres do controle político e
da política que sofre o déficit perpétuo do poder. Daí a crise de confiança nas
instituições políticas, uma vez que a política investiu nos parlamentos e nos
partidos para construir a democracia como atualmente a compreendemos. Mais e
mais pessoas duvidam que os políticos sejam capazes de cumprir suas promessas.
Assim, elas procuram desesperadamente veículos alternativos de decisão coletiva
e ação, apesar de, até agora, isso não ter representado uma alteração efetiva.
Época: As redes
sociais aumentaram sua força na internet como ferramentas eficazes de
mobilização. Como o senhor analisa o surgimento de uma sociedade em rede?
Zygmunt
Bauman: Redes, você sabe, são interligadas, mas também descosturadas e
remendadas por meio de conexões e desconexões... As redes sociais eram
atividades de difícil implementação entre as comunidades do passado. De algum
modo, elas continuam assim dentro do mundo off-line. No mundo interligado,
porém, as interações sociais ganharam a aparência de brinquedo de crianças
rápidas. Não parece haver esforço na parcela on-line, virtual, de nossa
experiência de vida. Hoje, assistimos à tendência de adaptar nossas interações
na vida real (off-line), como se imitássemos o padrão de conforto que
experimentamos quando estamos no mundo on-line da internet.
Época: Os jovens
podem mudar e salvar o mundo? Ou nem os jovens podem fazer algo para alterar a
história?
Zygmunt
Bauman: Sou tudo, menos desesperançoso. Confio que os jovens possam
perseguir e consertar o estrago que os mais velhos fizeram. Como e se forem
capazes de pôr isso em prática, dependerá da imaginação e da determinação
deles. Para que se deem uma oportunidade, os jovens precisam resistir às
pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade
compartilhada para o futuro do planeta e seus habitantes. Os jovens precisam
trocar o mundo virtual pelo real.
Época: Como o
senhor vê a nova onda de protestos na Europa, no Oriente Médio, nos Estados
Unidos e na América Latina, que aumentou nos últimos anos?
Zygmunt
Bauman: Se Marx e Engels escrevessem o Manifesto Comunista hoje, teriam de
substituir a célebre frase inicial – “Um espectro ronda a Europa – o espectro
do comunismo” – pela seguinte: “Um espectro ronda o planeta – o espectro da
indignação”. Esse novo espectro comprova a novidade de nossa situação em relação
ao ano de 1848, quando Marx e Engels publicaram o Manifesto. Faltam-nos
precedentes históricos para aprender com os protestos de massa e seguir
adiante. Ainda estamos tateando no escuro.
Época: O senhor
afirma que as elites adotaram uma atitude de máximo de tolerância com o mínimo
de seletividade. Qual a razão dessa atitude?
Zygmunt
Bauman: Em relação ao domínio das escolhas culturais, a resposta é que não
há mais autoconfiança quanto ao valor intrínseco das ofertas culturais
disponíveis. Ao mesmo tempo, as elites renunciaram às ambições passadas, de
empreender uma missão iluminadora da cultura. A elite deixou de ser o mecenas
da cultura. Hoje, as elites medem sua superioridade cultural pela capacidade de
devorar tudo.
Época: Essa
diluição dos valores explica por que artistas como Damian Hirst e Jeff Koons
buscam mais fama do que reconhecimento artístico?
Zygmunt
Bauman: Prefiro não generalizar sobre esse tema. Os artistas, suas
performances e produtos são hoje em dia muitos e diferentes, e os veredictos
apressados são equivocados. Pessoalmente, detesto e me aborreço com os Damiens
Hirsts, Jeff Koons e similares. Mas eles são ostensivamente sustentados pelas
correntes e modas guiadas pelo mercado. Os mercados usurparam o mecenato das
artes das igrejas e dos Estados. Por isso, o meio é realmente a mensagem da
arte contemporânea.
Época: Como diz o
crítico George Steiner, os produtos culturais hoje visam ao máximo impacto e à
obsolescência instantânea. Há uma saída para salvar a arte como uma experiência
humana importante?
Zygmunt
Bauman: Bem, esses produtos se comportam como o resto do mercado.
Voltam-se para as vendas de produtos na sociedade dos consumidores. Uma vez que
a busca pelo lucro continua a ser o motor mais importante da economia, há pouca
oportunidade para que os objetos de arte cessem de obedecer à sentença de
Steiner...
Época: O senhor
diz que a cultura se tornou dependente da moda. Por que isso ocorre?
Zygmunt
Bauman: Modas vêm e vão e são tão velhas quanto a cultura, tão antigas
quanto o homo sapiens... O que a fez tão espetacularmente presente em nossa
vida diária é o impacto combinado da comunicação digital em tempo real e da
produção em massa com a associação entre butiques de alta-costura e grandes
redes de lojas. As manifestações culturais e artísticas são arrastadas pelo
motor da moda.
Época: A moda
pode dar sentido à vida das pessoas?
Zygmunt
Bauman: A moda tem seus usos e uma demanda enorme e crescente. Ela fornece
um modelo para a constante troca de identidades de nosso mundo. Funciona também
como antídoto contra o horror de falhar num mundo em alta velocidade e contra o
resultante abandono e degradação social. Não há nada de inútil na moda. Pelo
contrário, é uma necessidade num mundo de flutuação e desorientação.
Época: Seus
livros parecem pessimistas, talvez porque abram demais os olhos dos leitores. O
senhor é pessimista? Ou busca a alegria de alguma forma, apesar de todos os
problemas?
Zygmunt
Bauman: A meu ver, os otimistas acreditam que este mundo é o melhor
possível, ao passo que os pessimistas suspeitam que os otimistas podem estar
certos... Mas acredito que essa classificação binária de atitudes não é
exaustiva. Existe uma terceira categoria: pessoas com esperança. Eu me coloco
nessa terceira categoria. De outra forma, não veria sentido em falar e
escrever...
Luís Antônio
Giron (Revista Época - 21/02/2014)
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